13 de jun de 2011

Ciência e Espiritualidade – Teoria da Complexidade vs Pensamento Cartesiano


“o pensamento complexo é animado por uma tensão permanente entre a aspiração a um saber não parcelado, não dividido, não reducionista, e o reconhecimento do que é inacabado e incompleto em todo conhecimento.”
Edgar Morin, filósofo da ciência.

Me deparo hoje com um novo desafio, falar de espiritualidade a pessoas da ciência, a quem a curiosidade metafísica só alcançou após terem suas convicções de mundo solidamente construídas sobre os pilares do racionalismo cartesiano. 

Penso que minha tarefa não logra grande dificuldade, pois que também eu fui influenciado em algum momento pelo pensamento cartesiano e, coerente com as mudanças de paradigmas que caracterizam a evolução do conhecimento científico, só mais tarde descartei (com o perdão do trocadilho) o método de René Descartes em benefício da Teoria da complexidade de Edgar Morin.

Vou me valer do recurso ctrl C + ctrl V para estabelecer algumas premissas sobre as quais se desenvolverá meu pequeno artigo, respeitando a natureza linear do pensamento analítico cartesiano que possivelmente ainda vigora na mente daqueles a quem este artigo visa alcançar.

fractal
“Estamos acostumados a pensar uma série de dicotomias a respeito da “natureza” do ser humano, como sendo polos opostos ou contraditórios. Entre as mais importantes estão: matéria versus espírito, corpo versus mente, emoção versus razão, e animalidade versus humanidade. Elas são todas derivadas de uma dicotomia mais ampla, entre natureza e cultura. A partir do pressuposto de que estas sejam coisas separadas, estabelece-se uma barreira intransponível entre os universos animal e humano.”

Essa visão de mundo deve muito ao pensamento de Renê Descartes, que, embora tenha o mérito de ter sido um dos criadores da ciência moderna, separou matéria e espírito de forma irreconciliável. Em oposição a tais dicotomias, a ciência contemporânea propõe uma abordagem sistêmica, interdisciplinar e reintegradora daquilo que ciência tradicional segmentou.”

“Edgar Morin afirma que essa mudança de pensamento constitui a passagem de um “paradigma da simplificação” para um “paradigma da complexidade”. Outro importante aspecto desta nova forma de pensar é a ideia de que nenhum método ou teoria é suficiente para dar conta das múltiplas causas e facetas dos fenômenos estudados pela ciência. [...] Já não estaremos diante do conhecido problema de saber se o que vemos é ou um cálice ou duas faces quando entendermos que se trata tanto de um cálice como de duas faces...”

Fonte: Ercy Soar - Médico psiquiatra e psicoterapeuta, mestre em Psicologia e doutor em Ciências Humanas, professor de Saúde Mental da Universidade do Sul de Santa Catarina. http://homocomplexus.blogspot.com

“Os ideais que iluminaram o meu caminho são a bondade, a beleza e a verdade.”
Albert Einstein
METODO

Também Allan Kardec, codificador da doutrina espirita, entendia-se por cientista, o escritor e jornalista espírita Deolindo Amorim, num de seus artigos dedicados ao codificador, nos aponta alguns comportamentos observados na conduta de Kardec e nos quais podemos nos espelhar na busca pelo conhecimento espiritual.

“Allan Kardec revela-se, em tudo e por tudo, um homem de espírito científico pela sua própria natureza... Todas as condições indispensáveis ao espírito científico nele estão, sem tirar nem pôr, como diz o jargão habitual: 



  • Em primeiro lugar, a serenidade com que encarou os fatos mediúnicos, com equilíbrio imperturbável, sem negar nem afirmar aprioristicamente; 
  • Em segundo lugar, o domínio próprio, a fim de não se entusiasmar com os primeiros resultados; 
  • Em terceiro lugar, o cuidado na seleção das comunicações; 
  • Em quarto lugar, a prudência nas declarações, sempre com a preocupação de evitar divulgação precipitada de fatos ainda não de todo examinados e comprovados; 
  • Em quinto lugar, finalmente, a humildade, que é também uma condição do espírito científico, interessado na procura da verdade, antes e acima de tudo.”
Fonte: AMORIM, Deolindo. Análises espíritas. Compilação de Celso Martins. 2. Ed. Rio de Janeiro: FEB, 1995. (Allan Kardec e o espírito científico), p. 133-134


Relembremos então a evolução da metodologia científica na definição da Wikipédia e posteriormente uma análise do método científico empregado por Kardec no desenvolvimento de seus estudos devidamente explicado e contextualizado no artigo de Guilherme Knopak intitulado “Método Científico de Kardec”.

“O método científico é um conjunto de regras básicas para desenvolver uma experiência a fim de produzir novo conhecimento, bem como corrigir e integrar conhecimentos pré-existentes. Na maioria das disciplinas científicas consiste em juntar evidências observáveis, empíricas (ou seja, baseadas apenas na experiência) e mensuráveis e as analisar com o uso da lógica. Para muitos autores o método científico nada mais é do que a lógica aplicada à ciência.

Metodologia científica literalmente refere-se ao estudo dos métodos e, especialmente, do método da ciência, que se supõe universal. Embora procedimentos variem de uma área da ciência para outra (as disciplinas científicas), diferenciadas por seus distintos objetos de estudo, consegue-se determinar certos elementos que diferenciam o método científico de outros métodos (filosófico, algoritmo – matemático, etc.).

A metodologia científica tem sua origem no pensamento de Descartes, que foi posteriormente desenvolvimento empiricamente pelo físico inglês Isaac Newton. Descartes propôs chegar à verdade através da dúvida sistemática e da decomposição do problema em pequenas partes, características que definiram a base da pesquisa científica.

Círculo de Viena acrescentou a esses princípios a necessidade de verificação e o método indutivoKarl Popper demonstrou que nem a verificação nem a indução serviam ao método científico, pois o cientista deve trabalhar com o falseamento, ou seja, deve fazer uma hipótese e testar suas hipóteses procurando não provas de que ela está certa, mas provas de que ela está errada. Se a hipótese não resistir ao teste, diz-se que ela foi falseada. Caso não, diz-se que foi corroborada. Popper provou também que a ciência é um conhecimento provisório, que funciona através de sucessivos falseamentos.

Thomas Kuhn percebeu que os paradigmas são elementos essenciais do método científico, sendo os momentos de mudança de paradigmas chamados de revoluções científicas. 


Mais recentemente a metodologia científica tem sido abalada pela crítica ao pensamento cartesiano elaborada pelo filósofo francês Edgar Morin. Morin propõe, no lugar da divisão do objeto de pesquisa em partes, uma visão sistêmica, do todo. Esse novo paradigma é chamado de Teoria da complexidade (complexidade entendida como abraçar o todo).”

Fonte: Wikipédia

Método Científico de Kardec

“Para que se possa compreender o método científico que Kardec utilizou para realizar a codificação espírita é necessário primeiramente entender a concepção epistemológica que emergiu no século XIX e proporcionou diversas descobertas nas mais variadas áreas. 


Se Bachelard afirma que o novo pensamento científico no início do século XX se caracterizou por uma prioridade do racionalismo frente ao chamado realismo, o século XIX deu ênfase para o empirismo, construindo novas teorias através de experimentações, verificações e observações. 


Charles Darwin foi um dos expoentes deste método que também promovia inovações. Durante muito tempo as pesquisas científicas se limitavam simplesmente a observar, onde o cientista era treinado para colher dados e transcreve-los cuidando ao máximo para não interferir ou deles tirar conclusões precipitadas. 


Já na metade do século XIX, com o surgimento de obras voltadas especificamente para a epistemologia, o método se alterou: o pesquisador formulava a partir de suas observações hipóteses para posteriormente serem comprovadas ou descartadas mediante as evidências, sendo que no caso de serem refutadas novas hipóteses eram formuladas. Darwin, segundo consta dos revisores contemporâneos de sua obra, era exímio nesta arte de incansavelmente formular e reformular hipóteses submetendo-as aos experimentos e observações.”

“Kardec que fazia parte da construção desta nova mentalidade e possuía uma excelente educação formal, também se serviu deste método para elaborar a codificação espírita. O próprio exemplifica claramente isso na introdução do “Evangelho Segundo o Espiritismo”, ressaltando passo a passo como fazia para introduzir um novo conceito e construir o edifício do Espiritismo. 


Primeiramente ele colhia e analisava mensagens do seu entorno, oriundas dos médiuns com os quais trabalhava mais frequentemente. Quando aparecia uma nova idéia, ele avaliava se ela era logicamente consistente. Posteriormente ele combinava com todo arcabouço espírita já alcançado para perceber se havia coerência. 


Se a idéia passasse por estes critérios era formulada uma nova hipótese, que dependeria de observações para ser descartada ou corroborada. As observações ocorriam da seguinte forma: Kardec publicava a mensagem na Revista Espírita e aguardava respostas de várias partes do mundo com mensagens espírita versando sobre o mesmo assunto para perceber se havia ou não uma universalidade no conteúdo. 


Era um trabalho meticuloso de análise, para garantir que cada novo conceito houvesse passado por um critério rigoroso de verificação, tal qual os experimentos científicos da época. Quando uma mensagem alcançava este valor de universalidade, Kardec aguardava o momento adequado para lançar o novo conceito.”


Fonte: http://espiritismoempauta.blogspot.com


A doutrina espírita é baseada nos cinco livros da Codificação Espírita escrita pelo educador francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, sob o pseudônimo de Allan Kardec, descrevendo sessões em que ele observou uma série de fenômenos que ele atribuiu à inteligência incorpórea (espíritos). Sua premissa da comunicação do espírito foi validada por muitos contemporâneos, entre eles muitos cientistas e filósofos que participaram das sessões e estudaram os fenômenos. Seu trabalho foi posteriormente prorrogado por escritores como Léon DenisArthur Conan DoyleCamille FlammarionErnesto BozzanoChico XavierDivaldo Pereira FrancoWaldo Vieira, Johannes Greber e outros.

Fonte: Wikipédia

religioes
Insisti até aqui em validar a fundamentação da doutrina espírita, por entender que algumas de suas premissas são fundamentais no desenvolvimento do conhecimento espiritualista, fazendo-se necessária sua aceitação para seguirmos adiante. Essas premissas são:

ReencarnaçãoÉ uma ideia central de diversos sistemas filosóficos e religiosos, segundo a qual uma porção do Ser é capaz de subsistir à morte do corpo. Chamada consciência, espírito ou alma, essa porção seria capaz de ligar-se sucessivamente a diversos corpos para a consecução de um fim específico, como o auto-aperfeiçoamento ou a anulação do carma.

A reencarnação é um dos pontos fundamentais do Espiritismo, codificado por Allan Kardec, do Hinduísmo, do Jainismo, da Teosofia, do Rosacrucianismo e da filosofia platônica. Existem vertentes místicas do Cristianismo como, por exemplo, o Cristianismo esotérico, que também admite a reencarnação.

Há referência recentes a conceitos que poderiam lembrar a reencarnação na maior parte das religiões, incluindo religiões do Egito Antigo, religiões indígenas, entre outras.

Fonte: Wikipédia

Lei de causa e efeito: É um dos princípios fundamentais preconizados pela Doutrina Espírita para explicar as contingências ligadas à vida humana. Também é conhecida na literatura espírita como Lei da Causalidade.

Segundo ela, a todo ato da vida moral do homem corresponderia uma reação semelhante dirigida a ele, criando-se, assim, algo similar ao "cosmos ininterrupto de retribuição ética", a que alude Max Weber em Economia e Sociedade.

A Lei de causa e efeito, segundo a compreendia Kardec, distanciava-se da concepção de Karma, erroneamente difundida no Ocidente, por não admitir o determinismo.

Esta lei procura explicar os acontecimentos da vida atribuindo um "motivo justo", e uma "finalidade proveitosa" para todos os acontecimentos com que se depara o homem, inclusive o sofrimento.

Na filosofia budista, a chamada lei de causa e efeito parte do pressuposto que tudo o que é vivo no universo está sujeito a tal lei. Uma ação, uma palavra ou um pensamento, é uma forma de criar uma causa.

Aristóteles afirmava que "uma pedra de granito poderia se transformar numa estátua desde que um escultor se dispusesse a esculpi-la". Aristóteles acreditava que na natureza havia uma relação de causa e efeito e também acreditava na causa da finalidade. Deste modo, não queria saber apenas o porquê das coisas, mas também a intenção, o propósito e a finalidade que estavam por trás delas.

Fonte: Wikipédia

Comunicabilidade com os Espíritosmediunidade é o nome atribuído a uma capacidade humana que permite uma comunicação entre homens e Espíritos. Ela se manifestaria independente de religiões, de forma mais ou menos intensa em todos os indivíduos. Porém, usualmente apenas aqueles que apresentam num grau mais perceptível são chamados médiuns.

Fonte: Wikipédia

evolucao_deus

Uma vez assimilados estas premissas, e aceitas as existências da reencarnação, da lei de causa e efeito e da comunicabilidade com os espíritos, pode-se avançar na pesquisa através da literatura e principalmente da pesquisa de campo.

Em ambas, sempre preferi a opinião dos espíritos desencarnados, por entender que estes, sem as limitações de um corpo físico, possuem uma percepção maior do multiverso e das leis que o regem, bem como da complexa relação entre as diferentes dimensões.

Para saber o que pensam os espíritos, pode-se recorrer à leitura e, neste caso, encontraremos espíritos que possuem a vocação e treinamento para comunicar verdades, além do pleno entendimento de quais verdades podem ser comunicadas em determinados momentos.

Em contrapartida, é na pesquisa de campo e no contato direto com estes espíritos que a convicção se fortalece e, tem-se ainda a possibilidade de formular as perguntas e conduzir o diálogo para a área de maior interesse.

Imagino que aqueles muito racionais, podem encontrar certas dificuldades em compreender e aceitar as limitações típicas das religiões, pelo menos assim foi comigo. Neste caso, se faz necessário o entendimento que as religiões existem para atingir determinado público e/ou realizar determinada tarefa, e que nenhuma delas tem a pretensão de explicar o mundo e todos os seus fenômenos, portanto devem sim ser estudas individualmente e sem exceção, mantendo o distanciamento crítico e respeitando sua parcialidade, uma vez que estão sujeitas à contextualização histórica e social, bem como a objetivos específicos.

A pesquisa de campo, para lograr maior êxito e gerar mais e melhores dados, deve ocorrer em mais de uma frente, contemplando as muitas religiões e o diálogo com seus iniciados, conversas sistemáticas com os espíritos que nelas atuam e experiências de caráter mediúnico e paranormal.

Estas experiências o pesquisador deve realizá-las tendo sempre que possível ele mesmo como objeto de estudo e, na impossibilidade ou caso não logre resultados após um longo período, pode-se recorrer a pessoas de confiança que já tenham desenvolvidas a mediunidade e/ou paranormalidade.

É preciso sempre ter em mente que a mediunidade pode se manifestar de diferentes maneiras e, para melhor compreensão destes fenômenos, deve-se estudar a literatura que aborda os Chacras e suas funções. Esta matéria tem sido abordada tanto na literatura espirita quanto na teosófica (com mais metodologia e fundamentação científica) e também nas religiões orientais, como hinduísmo, taoísmo e budismo.

Nada impede que aquele que se dedica ao estudo da metafísica e seus fenômenos sinta-se mais a vontade em uma ou outra manifestação religiosa e, dedique-se mais intensamente a esta. Muitas vezes, suas próprias condições mediúnicas lhe conduzirão nessa direção. Neste caso, recomendo apenas que não perca de vista o paradigma da complexidade e não se deixe envolver por possíveis dogmas religiosos que tendem a negar o conhecimento oriundo de religiões e práticas distintas. Isto é comum aos religiosos e não aos espíritos, fora da realidade física, não se percebe separação e diferentes categorias de espíritos costumam trabalhar juntas para atingir objetivos comuns.

Resumindo: No meu modesto entendimento, pessoas que desenvolveram o espírito crítico e racional, a capacidade intelectual e a multidisciplinaridade, construíram condições internas que lhe favorecem a aplicação do paradigma da complexidade ao tema da espiritualidade. O próprio paradigma inclui - pela sua natureza - a espiritualidade como indissociável da matéria e, portanto compreender o multiverso  só é possível através de um ponto de vista amplo, não cartesiano, que contemple todos os aspectos da vida, dos indivíduos e das coletividades.


1 comentários:

Flávia Fonseca disse...

Prezado Diego! Parabéns por mais uma bela reflexão! Obrigada pela generosidade em partilhar conosco....
Flávia

Postar um comentário

Postagens Recentes